TIC’s e a imigração virtual

Este fim de semana me deparei com uma entrevista de Richard Baldwin, um dos principais especialistas de mundo em comércio, para a Folha de São Paulo. Ele fala sobre uma nova fase da globalização que diz respeito aos imigrantes virtuais. Esse termo chamou minha atenção e fui entender o que se trata.

De acordo com o especialista, imigração virtual acontece quando profissionais moram num país, mas trabalham em outro, fazendo uso das tecnologias de informação e comunicação (TIC’s) para que isso aconteça de forma mais efetiva possível.

Quando li isso, pensei: “Uau! A que ponto chegamos…”. Lembrei-me de autores como Willian Ford Gibson e Pierre Lévy falando, há alguns anos atrás, do ciberespaço e da suas infinitas possibilidades interativas. Em seu livro Inteligência Coletiva: por uma antropologia do ciberespaço¹, Lévy previa que essa “ágora virtual” facilitaria a navegação e a orientação do conhecimento, promoveria trocas de saberes, acolheria a construção coletiva do sentido e poderia, até, tornar-se o lugar de uma nova forma de democracia direta em grande escala.

Ao ler a entrevista de Baldwin na íntegra conclui que esse mundo Volátil, Ambíguo, Complexo e Incerto (VUCA), desenvolvido a partir do contexto do ciberespaço, está gerando uma série de mudanças em todos os níveis – sociais, econômicos, políticos, culturais e até ambientais, o que nos leva à construção de uma nova forma de democracia prevista por Lévy.

Baldwin até tenta mostrar que a imigração virtual é algo simples ao comparar com um tipo de trabalho que já é comum nos Estados Unidos e que vem ganhando espaço no Brasil: o home-office. Para o especialista, o trabalho remoto é um dos fatores que vai colaborar para a imigração virtual: “As empresas estão se adaptando com a adoção de novos softwares para tornar o trabalho de casa mais fácil. Essas mudanças abrem a porta para a imigração virtual, pois rapidamente as companhias vão perceber que dá para contratar um estrangeiro que vai cobrar muito menos”. Antes de prosseguir para os demais fatores, é importante destacar algumas questões políticas e econômicas ocasionadas por esse fenômeno.

A tendência é que o fluxo da imigração virtual aconteça dos países emergentes para os países ricos. No Brasil, por exemplo, temos trabalho de qualidade a baixo custo. Segundo Baldwin, globalização representa oportunidades para cidadãos e empresas mais competitivas e desafios para os menos competitivos. “Como nos emergentes o custo do trabalho é menor, esses cidadãos serão mais competitivos. Mas existem pessoas nos países ricos que são competitivas globalmente”. Isso quer dizer que da mesma forma que teremos oportunidade de trabalho lá fora, também iremos concorrer com estrangeiros aqui no Brasil. E outro ponto importante: as oportunidades são para quem dispõe de computador e internet e de qualificações que exigem alguma educação formal. Infelizmente, aqui no Brasil, isso não é para todos! Por outro lado, nos países ricos, esse fenômeno será disruptivo. “Empregos profissionais – os chamados do colarinho branco – serão perdidos rapidamente. Essas pessoas vão se juntar às que perderam seus postos de trabalho na indústria. Será chocante e pode levar à revolta”, ressalta Baldwin. A consequência disso pode ser o fortalecimento de movimentos populistas.

Vale destacar, também, que o fenômeno não está atrelado à ocupação (ou profissões), mas à tarefas. Isso quer dizer que algumas delas podem ser feitas por um imigrante virtual, outras não. Baldwin cita um exemplo: “Um contador brasileiro não conhece a legislação americana. Contudo, tem muito trabalho [tarefas] em contabilidade que é basicamente analisar um monte de números para ver se batem. Pelo preço de um contador medíocre nos EUA, é possível contratar os melhores no Brasil”. Isso reforça uma tendência de mercado: menos empregos formais, mais trabalhos por projetos, impactando, assim, a legislação trabalhista e as próprias leis internacionais daqui para frente. Nesse sentido, a Organização Mundial do Comércio (OMC) firmou um acordo sobre o comércio de serviços e vem se movimentando com relação a regras sobre o comércio eletrônico, serviços bancários entre outros. O problema maior, na visão de Richard Baldwin, é a taxação: “Onde os trabalhadores vão pagar impostos? Hoje, em lugar nenhum. Os países terão que fazer algo a respeito”.

Voltando aos fatores que irão contribuir para a imigração virtual, temos a melhoria das telecomunicações possibilitando as reuniões virtuais; a tradução por máquinas eliminando, assim, as barreiras linguísticas. Segundo Baldwin, essa tradução nunca vai ser perfeita, mas suficiente para fazer negócios. E o último fator é o surgimento de sites que vão servir de plataformas de contratação de profissionais, como o upwork.com, que atualmente é o maior do mundo.

Não sei se você consegue perceber a dimensão desse fenômeno e o quanto ele impacta na sociedade em geral. Teremos que nos reinventar dia após dia para manter (ou conquistar) nosso espaço no mercado de trabalho. E essa reinvenção só vem com aprendizado contínuo. Mais importante do que saber fazer alguma coisa, será querer aprender algo diferente: devemos ser eternos aprendizes (lifelong learner).

E concluo com Lévy, “premonitor” do mundo VUCA:

Que tentemos compreendê-lo, pois a verdadeira questão não é ser contra ou a favor, mas sim reconhecer as mudanças qualitativas na ecologia dos signos, o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural. Apenas dessa forma seremos capazes de desenvolver estas novas tecnologias dentro de uma perspectiva mais humanista.

¹ LÉVY, Pierre. Inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 5. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2007.


Crédito da foto: https://pixabay.com/

 

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