Modismos e modelos em EaD

Texto escrito pela Co11ectada Paula Carolei

Já percebeu que todo ano surge um tema da moda ou uma tendência que precisa ser adotada? Algo que todo mundo começa a falar nos congressos, nas palestras e, agora, nas lives, e sobre isso são lançados livros, plataformas, manuais de “como fazer” etc. Essas “palavras obrigatórias” aparecem nos discursos para que sejam “validadas” como algo inovador. Foucault chamaria isso de “episteme de verdade”, ou seja, um dispositivo discursivo que se cria para que as pessoas reconheçam seu discurso com verdadeiro e válido.

Geralmente, essas tendências estão ligadas a alguma tecnologia emergente e podemos lembrar de várias delas no universo da EaD, como o hipertexto, o second life, web 2.0 (que, agora, está no 4.0 ou 5.0), metodologias ativas, gamificação e, mais recentemente, a inteligência artificial.

Pense comigo: a quantas palestras você assistiu sobre tendências, só pela chamada/tema, e elas não passaram de uma mera repetição de coisas que não funcionam, mas adquiriram uma “nova roupagem”? Quantas formações ou plataformas a sua corporação comprou por causa de um modismo e não gerou impacto algum, sendo abandonada em pouco tempo? Quantos relatórios de tendências que “previam” a adoção de tecnologias em curto ou longo prazo foram lançados e quase nada do que foi “previsto” se concretizou? Mas, será que, pelo menos, essas tendências se confirmaram? Talvez algumas, mas a maioria foi abandonada ou esquecida. Mesmo com um potencial incrível, pouco daquilo foi realmente colocado em prática.

E por que isso acontece?

Porque as reais transformações devem ser construídas no COLETIVO. E refiro-me a um coletivo amplo que não envolve, apenas, quem “toma as decisões” e são os alvos de quem vende materiais e plataformas, porque não podemos focar somente na compra ou na adoção. Isso não é educação, nem transformação social.

A mudança só acontece quando se reflete sobre as práticas e se percebe que é preciso mudar nossa forma de aprender, ensinar, gerenciar, produzir conhecimento. É preciso olhar para nossos modelos de ação e de autoria e incorporar essas tecnologias como possibilidade de transformar os processos, dando mais transparência, visibilidade, organização, apoio à autoria e à colaboração.

Por exemplo, a hipertextualidade mudou tanto nos últimos anos: como criamos links, camadas de conteúdos, seus formatos, mobilidades e multimodalidades, porém quase não se fala mais disso e o termo até caiu em desuso, pois não está no “modismo” atual. Assim, deixa-se de analisar a estrutura das construções hipertextuais, que é algo tão rico e tão potente para a aprendizagem.

Outro exemplo famoso são os “metaversos” como o second life, que foi um grande modismo entre 2006 e 2009. Esse ambiente ainda existe e tem um potencial criativo imenso, mas, como foi apenas modismo, as pessoas reproduziram ambientes físicos em formato 3D. Hoje, ainda há pesquisadores e artistas fazendo ações incríveis por lá e aprimorando sua usabilidade. Contudo, é preciso entender que cada plataforma tem suas mecânicas e seus modelos e é isso que precisamos olhar além do modismo. Há plataformas que são criadas com princípios de estímulo ao consumo, como era o second life e outras que são mais abertas à criação e dão mais transparência e apoio à colaboração. Também tem uma questão de recursos e da necessidade de processamento, ou mesmo da usabilidade, pois a tecnologia, para ser adotada, precisa proporcionar um acesso fácil e intuitivo ao usuário por meio de seus próprios equipamentos e internet.

Agora, temos a inteligência artificial. Parece que ela vai resolver tudo, inclusive já está substituindo tutores em algumas instituições de ensino. Mas, quais os modismos e modelos que estão por trás disso? É só analisar criticamente e pensar: O que estão vendendo? O que é padronizado? Que transparência existe? Qual o papel de cada ator no processo e qual o seu grau de autoria e autonomia?

É preciso pensar na complexidade dos atores e nas necessidades educacionais para, assim, escolher as estratégias pedagógicas aliadas com as possibilidades das tecnologias. Então, os modelos de EaD precisam ser construídos e reconstruídos a partir de uma necessidade coletiva e das limitações de recursos e tempo.

Os modelos devem ser transparentes e negociados com todos para que sejam, continuamente, avaliados, revistos e reconstruídos. E ao surgir uma tecnologia “nova”, ela pode ampliar e melhorar os processos, caso potencialize ações importante para aquele contexto.

Os modelos não podem ser impostos, porque, dessa forma, os atores não se sentem representados e não aderem – e até boicotam! Mas, essa autoria coletiva não é simples, as pessoas gostam de receber pronto para não terem que se responsabilizar pelo processo, entretanto, isso não significa que vão adotar. Complexo, não é?

A educação como transformação social é um processo em constante construção e as tecnologias deveriam ajudar nisso sendo o meio e não o fim.

Então, antes de falar do tema da moda, vamos compartilhar nossas experiências de autoria e colaboração, nossas práticas e como elas estão se transformando constantemente. Vamos admitir nossas “apostas erradas” e usar isso para aprender com o processo. Não precisamos falar do que está na moda para ser inovador.

Não há inovação sem construção social. Em educação, não se pode deixar de pensar em currículo, que é a demanda social, e como esse currículo acontece na nossa organização; como os professores constróem seus atos de currículo através das estratégias pedagógicas e como as tecnologias permeiam e facilitam esses atos; como os alunos vivenciam esse currículo; e como as tecnologias ajudam a tornar o processo mais visível, possibilitando a reflexão dos processos e sua melhoria.

E já que estamos falando em reflexão, pergunto a você: Quais tecnologias usam na sua instituição? Como elas ajudam o aluno a saber o que aprendeu e como aprendeu? Como ajudam o professor a organizar e perceber suas estratégias de ensino e aprimorá-las? Como ajudam a gestão a acompanhar os processos e apoiar melhorias? Como incluem a comunidade ou comunicam para a sociedade o que fazem e o impacto social que têm?

A inovação não é modismo, mas é um constante rever de modelos, com atores que funcionam e com designers que reprojetam, constantemente, esses modelos com consciência e intencionalidade, gerando, cada vez mais, uma maior transformação social.

3 comentário em “Modismos e modelos em EaD

  1. Excelente texto Paula! com provocações importantes especialmente agora que “chovem” lives e sempre com títulos em que chamam seja pela inovação ou pelas metodologias ativas, ou pelo ensino híbrido. e assim aproveito para te perguntar… de que maneira podemos em nossos espaços fomentar a inovação via construção social aproveitando o momento que vivemos?

    1. Oi Luciana,

      Acho que precisamos criar mecanismos de escuta social e criar ações educativas que atendam as necessidade das comunidades. Tem várias forma de mapear o que as pessoas pensam , sentem e precisam. Infelizmente ainda as ações educativas tem partido muitos dos interesses comerciais de determinados grupos e não das demandas sociais. Há muitos trabalho feitos por associações, ativistas e até statups que invertem essa lógica.

  2. Sempre muito pertinente. Fico meio arredia quando me perguntam sobre tendências na educação, ou de tecnologia….. adorei o artigo. E sinceramente a educação não precisa de modismo e sim de trabalho colaborativo. Parabéns Paula, 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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