Seremos nós, os professores, substituídos pela Inteligência Artificial?

Texto escrito pela Co11ectada Renata Costa

Se você é da área de educação, provavelmente, no ápice da pandemia, acompanhou nas mídias digitais as diversas publicações sobre a Instituição de Ensino Superior (IES) que, supostamente, substituiu seus professores pela Inteligência Artificial (IA). A notícia se espalhou de forma exponencial no meio acadêmico, causando indignação, repúdio, debates, lives, comentários e um sentimento muito forte de solidariedade aos professores demitidos.

Sem sombra de dúvidas, uma demissão é muito dolorosa para quem passa por ela. Ainda assim, o sentimento de perda nos deixa sem chão e conciliado ao de substituição, remete-nos, inclusive, à incapacidade de coexistir na sociedade que estamos inseridos – sentimo-nos diminuídos e impotentes. Mesmo diante dessa reflexão, não dialogaremos, aqui, a situação em si ou as razões da IES em demitir nossos colegas.

Particularmente, prefiro refletir com você, neste momento, o que quase ninguém refletiu na época:

Seremos nós, os professores, realmente substituídos pela Inteligência Artificial?

Essa pergunta é um tanto complexa, mas antes de responder, que tal refletirmos um pouco sobre a IA? Ela vem sendo estudada desde a década de 1940. A partir de 1960, estudos biológicos apontaram a possibilidade de se imitar as redes neurais humanas, mas somente na década de 1990 – com as novas tecnologias – a inteligência artificial impulsionou. Uma das definições para isso diz respeito à “simulação” da inteligência humana por meio de dispositivos tecnológicos. É o treinar as máquinas para que elas façam as nossas tarefas básicas e repetitivas por meio da simulação de nossas habilidades, como a capacidade de raciocinar, observar, perceber e de tomar decisão. Um exemplo prático dessa definição é você, professor, treinar a inteligência artificial para que ela faça a análise de plágios nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC). Ou seja, você deixa de fazer a parte mecânica dessa atividade para investir na personalização do relacionamento e na aprendizagem de seu aluno.

Voltando ao nosso processo reflexivo, é importante, também, considerarmos que existem diversos pontos de vista em relação à IA. Mas, independentemente dos rumos desses estudos, pesquisadores e especialistas enfatizam a necessidade do bom senso e da ética em sua aplicabilidade, pois os estudos estão cada vez mais avançados, as máquinas ou aplicativos estão cada vez mais sendo treinadas e aperfeiçoadas para a aprendizagem humana.

Observe que me refiro à inteligência artificial tendo o humano no controle. Não que eu acredite apenas nessa possibilidade, pois já li algumas coisas sobre a “singularidade tecnológica” e essa área me fascina, ainda mais que sou fã da trilogia Matrix. Além disso, não podemos esquecer que a inteligência artificial também tem um campo de estudo em que as máquinas aprendem entre si. De qualquer forma, o que podemos considerar é que a IA está relacionada ao velho e bom processo de ensino e aprendizagem, seja de humano para máquina ou de máquina para máquina. O que nos compete, então, é aprender a aprender como ensinar as máquinas.

Essa aprendizagem não está relacionada somente aos aspectos tecnológicos ou algorítmicos, mas também às questões relacionadas à ética, moral, responsabilidade social, política, economia e, também, à afetividade. É sabido que as máquinas (ainda) não têm sentimentos, mas as pessoas que as ensinam sim! Por isso, espero que quem for ensinar a inteligência artificial (principalmente, da área de educação), além de ser ético, ter bom senso, muito conhecimento teórico e técnico, tenha sentimentos saudáveis, pois a inteligência artificial não deve ser uma aplicabilidade danosa para a sociedade.

Nesse contexto, creio que Matrix não seja um filme exemplo para falarmos de sentimentos entre homens e máquinas. Mas existem dois filmes que sempre gosto de comentar em minhas aulas ou palestras: Amores Eletrônicos e TAU. Aprendi muito com eles, principalmente no que se refere ao processo de ensino e aprendizagem entre homens e máquinas.

O filme Amores Eletrônicos, que assisti por volta de 1985, conta a história de um inusitado triângulo amoroso entre: Madeline, Miles e Edgar. Uma exótica relação porque Edgar é um computador que se apaixona por Madeline, uma violoncelista. Entre investidas e atrapalhadas, Edgar apronta muito para que Miles – o arquiteto – não conquiste o amor de Madeline. O filme romântico tem várias cenas futurísticas, mas uma das mais interessantes é quando Miles “ensina” a Edgar o amor dele por Madeline e o computador “aprende” e, simbolicamente (ou hipoteticamente), compõe a música “Love is Love – Culture Club”.

Alguns anos depois – entre um filme de ficção científica e outro (incluindo a trilogia Matrix) – assisti TAU (2018). O filme também tem um triângulo.  Nem tanto amoroso, mas que tem seu enredo baseado nos personagens Alex, o cientista, Júlia, que é a cobaia sequestrada por Alex, e TAU, a inteligência artificial que administra a casa do cientista. Na trama, Júlia – que coincidência, ou não, é o nome de uma linguagem de programação para aprendizado de máquina e deep learning criada em 2012 – compreende que TAU aprende. Sem dar o spoiler completo do filme, entre um diálogo e outro com TAU, Júlia faz leituras diárias para a inteligência artificial, conta histórias pessoais, fala sobre empatia, família, vida, sociedade e amor. E TAU? Assim, como Edgar, do outro filme, simplesmente, TAU aprende!

São cenas memoráveis (para mim), pois é perceptivo que no processo de ensino e aprendizagem é importante observar o outro, mesmo que o outro seja uma máquina. Além disso, que o medo e a resistência são barreiras que influenciam, negativamente, a autoaprendizagem e que, assim como Júlia e Miles, conhecer a inteligência artificial e saber lidar com ela é uma questão de sobrevivência. Ainda assim, e se você assistir a um dos dois filmes, vai entender o que os protagonistas fizeram: além de aprender, dialogar, perceber, ensinar, utilizaram, também, o pensamento computacional.

E aqui vale uma pausa para explicar que existe o pensamento computacional incondicional: aquele que temos e nem sabemos, mas é fundamental para a aprendizagem tecnológica. Contudo, engana-se quem pensa que este pensamento está diretamente relacionado à programação. Segundo o professor Paulo Blikstein (2018), da Universidade de Stanford, o pensamento computacional está relacionado à:

Identificação das atividades cognitivas que são improdutivas para serem executadas por um indivíduo, pois são feitas de ações repetitivas que podem ser executadas de forma mais produtiva e rápidas por um computador.

Voltamos à repetição e improdutividade. Então, fica a pergunta: seremos nós, os professores, realmente, substituídos pela Inteligência Artificial?

Continue refletindo:

“[…], a habilidade de transformar teorias e hipóteses em modelos e programas de computador, executá-los, depurá-los, e utilizá-los para redesenhar processos produtivos, realizar pesquisas científicas ou mesmo otimizar rotinas pessoais, é uma das mais importantes habilidades para os cidadãos do século XXI. E, curiosamente, é uma habilidade que nos faz mais humano. Afinal, o que há de mais humano do que livrarmo-nos de tarefas repetitivas e focar no mundo da ideias? Fazemos isso há milênios – em vez de apertar parafusos, inventamos uma máquina que o faça. Precisamos urgentemente redirecionar nossos esforços e recursos para ensinar nossas crianças a compreender esse interessante paradoxo: o pensamento computacional nos torna cada vez mais dependente e, ao mesmo tempo, diferentes dos computadores. Entender como podemos ser mais produtivos e criativos – mesmo sendo mais dependentes – é o maior desafio dos educadores que querem repensar a tecnologia na sala de aula”. 
(BLIKSTEIN, 2018).


10 comentário em “Seremos nós, os professores, substituídos pela Inteligência Artificial?

  1. Não se pode deter o desenvolvimento da ciência em todas as áreas. Isso é de fato inevitável. Muito bem, Renata!! Por isso que temos de nos aprofundar cada vez mais sobre como as pessoas aprendem, o que ficará em suas mentes e sentimentos para enfrentar um futuro incerto, diga-se na inspiração de Morin (2000). Penso que temos um grande problema ainda para encarar, só despertado pelo avanço da IA, que é de fato enfrentar a realidade de que não estamos conseguindo formar de maneira plena cidadãos para esse futuro, que já bateu à nossa porta. Afinal, a IA é desenvolvida por humanos e entre humanos percebemos enormes diferenças e isso precisaria de ser resolvido por uma educação mais inclusiva, com responsabilidade social, com menos conflitos de políticas públicas e mais focada na inteligência humana e nos sentimentos.

    1. Verdade professora Marilene, uma política pública pautada na imparcialidade, sem jogos de interesse e que tivesse a educação como prioridade universal. Penso também que estamos atrasados no avanço, mas não somente da IA, contudo, inclusive, no uso da tecnologia, principalmente da tecnologia humanizada – a que agregue no processo de ensino e aprendizagem mais afetividade. Obrigada por ler o artigo e contribuir. Gratidão. Renata Costa.

  2. Olha, eu estou muito empenhando nessa busca sobre IA e educação e você me inspirou e muito agora. Sim também sou fã de Matrix e acrescento o Homem Bicentenário a sua lista de filmes em que a máquina aprende. Seu artigo.realmente nos faz refletir. Forte abraço

    1. Que bom André! Obrigada por ler meu artigo. Gratidão. Já assisti o Homem Bicentenário, gosto também. É interessante, mas muito mais futurístico, principalmente, em relação aos sentimentos. Prefiro pensar que ainda estamos, na educação, na primeira fase da IA. Boas reflexões! Fico a disposição. Renata Costa

  3. Excelente reflexão!
    Faço mestrado em linguagem com foco na IA, pois considero importante que o ser humano esteja no controle da sociedade em que vive, que conheça bem seus pares, mesmo que sejam máquinas. Sugiro que assista o filme Chipie.

    1. Olá, Anna. Uma vez ouvi a expressão: a tecnologia nunca vai substituir o amor (virou até post aqui no blog rsrrs). É isso mesmo: nosso lado mais humano – e isso envolve afetividade, empatia, amor – precisa estar no controle. E o momento atual reforça muito isso. E gostei da dica do filme também, já vou incluir na lista do fim de semana, junto com os indicados pela Renata no artigo.
      Até breve!

    2. Olá Annaldina. Eu já assisti! Acho ele todo “bonitinho”. Um robô de alma e sentimentos que é fruto do meio. Boas aprendizagens: tanto nos aspectos tecnológicos, quanto em relação a sociedade, educação e propósitos de vida. É muito bom! Obrigada por ler meu artigo e bons estudos para você. Fico a disposição. Grata. Renata Costa.

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